segunda-feira, 4 de abril de 2016

Como eu era "feia" e depois fiquei bonita...

Minha transição capilar e empoderamento feminino!

"Mas ela parece uma florzinha!"


Era a frase que minha mãe ouvia quando saía para passear comigo e encontrava com uma moça da vizinhança. E realmente, eu era mesmo uma bela garotinha, doce, gentil e brava somente nas horas necessárias.

Cresci assim, sendo uma florzinha. 

Mas o tempo foi passando, e comecei a perceber que eu era a menina que ninguém queria como par nas festas juninas. Eu era uma menina negra. E meninas negras não eram aceitáveis como par. Além disso, minha mãe cansada dos meus choros para pentear o cabelo (e da forma que minha mãe penteava doía mesmo), cortou meu cabelo bem curtinho. Fui ficando "feia"...



E fui crescendo... 
Aos 14 anos, com minha amada amiga Cecília.

Além do corte horrendo de cabelo, passei a usar óculos, aparelhos dentais, e ganhei o simpático apelido de "Girafa" por causa do corpo magricela que apenas servia para brindar com todas as minhas outras características.

Eu tentava engordar, mas não conseguia. Procurava receitas de "regime de engorda", mas não encontrava. Meu cabelo, era regado a Wellin, mas nada adiantava. Meu cabelo "não tinha jeito", mesmo porque até o cabeleireiro assim pensava. Óculos mais bonito? Pra que? Tava tudo feio mesmo. E o aparelho, inevitável. Melhor não ser vaidosa mesmo.


15 anos
E cresci assim, resignada em ser a feia da turma. Aquela que é amiga de todo mundo, mas nenhum menino quer namorar. Aquela que SEMPRE sobra nas festas. Então, eu não via sentido nenhum em me arrumar, colocar roupas de marca, entender sobre maquiagens e afins. Nada do que eu fizesse tiraria de mim o fato de que eu era negra, portanto, considerada feia pela turma.

Aí, resolvi dar uma chance ao meu cabelo. Resolvi deixá-lo crescer, ainda que eu o mantivesse sempre preso (pelo menos estava mais comprido, eu pensava). Eu até me arrumava um pouco, ainda que eu soubesse que nada adiantaria. Mesmo se eu saísse de casa achando que eu estava bonita, eu voltava tendo certeza de que eu era a mais feia, afinal eu era aquela que não atraía os olhares de NINGUÉM! Até que aos 15 anos, um belo rapaz se apaixonou por mim. E isso me fez sentir "menos feia". Afinal, alguém me achou bonita mesmo sendo feia. Mas, traumatizada demais da vida, eu pensava: "se for pra me achar bonita, que seja como vim ao mundo: sem produções nem maquiagem!". Era quase um desafio à sociedade. Pobre de mim!

O tempo foi passando... E me mantive assim, como na foto de 15 anos... 

Até que entrei na faculdade... Eu já tinha aceitado que meu cabelo, mesmo grande, "não tinha jeito". Então, inventei um penteado que durou ANOS: o famoso coque!
21 anos e o famoso coque
Passei a faculdade inteira com este coque na cabeça. Não passava pela minha cabeça a idéia de usar lentes de contato ou pensar em roupas mais legais, maquiagens e outras "futilidades". O desafio à sociedade permanecia: "se for pra gostar de mim, que seja como eu sou ao natural!". E, eis que finalmente, surgiu uma caridosa alma no meio desta sociedade que estava se lixando para o meu "desafio". Foi um fotógrafo, namorado de uma colega de sala na faculdade. Ele viu beleza em mim e me chamou para um ensaio fotográfico. Pela primeira vez eu percebia as pessoas me olhando com admiração REAL por minha beleza. Mas me lembro bem, que eu estava com muita vergonha. Meus cabelos estavam soltos e volumosos. E ainda que todos dissessem que estava lindo, eu só queria que aquelas fotos acabassem logo para eu poder finalmente prendê-los.
20 anos, em meu primeiro ensaio fotográfico.
Na faculdade, algumas (não muitas) pessoas me achavam bonita. Eu entendia que é porque na faculdade (Escola de Design da UEMG) o pessoal era mais "mente aberta", por serem mais alternativos. Ser magra já era algo considerado bonito, mas mesmo assim eu me sentia MUITO magra (48 quilos para 1,68m), além disso meu cabelo era "ruim" (assim eu acreditava) e o que aprendi na escola: "era negra, logo era feia". Portanto, permaneci me sentindo feia durante toda a faculdade, me escondendo debaixo dos meus óculos e do meu penteado de coque.

O tempo foi passando... E assim permaneci: "negra, logo feia". Comecei, em 1999 a namorar o homem que viria a se tornar meu esposo (outro louco que quis ficar com a feiosa). Me lembro dele me apresentando aos amigos e o silêncio e olhares que tive de enfrentar. Até hoje não entendi aquela cena. Diz meu esposo que é porque ele nunca tinha aparecido com nenhuma namorada diante da turma. "Ok", pensei. Me lembro também dos olhares da família dele quando ele disse, na mesa de almoço, sobre a nossa decisão de casar. Pode ser que era apenas o choque natural com a notícia. Mas para alguém com a autoestima inexistente, cada reação desta natureza era como uma punhalada, confirmando toda a minha falta de beleza...

Um tempo depois, engravidei. 
31 anos - A gravidez, me tirando do "relaxamento" capilar
E logo ali minha filha já começava a mudar a minha vida. Eu não podia mais passar "relaxante" em meu cabelo. E aí comecei a fazer escova e chapinha e como isso minha guerra com o cabelo teoricamente tinha acabado. Mentira! Eu continuava o usando preso mesmo escovado (mesmo porque a escova não durava). Passei a usar lentes de contato, o que me fez sentir melhor também... Aos poucos, fui me deixando acreditar que eu não era tão feia assim... Eu já percebia havia beleza ali. "Apesar de negra", eu era bonita. Assim eu pensava...

Até que a coisa mais linda do mundo aconteceu comigo! Da dor de ver uma cena de cunho racista na escola de minha filha, surgiu um despertar! Foi o gatilho para eu não mais aceitar a imposição de padrões sobre mim, mulher negra. E comecei a minha caminhada libertando meu cabelo.
35 anos - O dia em que eu decidi aceitar eternamente meu cabelo.
Uma amiga me indicou um salão bem legal (CT Beauty) e resolvi começar o cortando bem curtinho, para incentivar minha pequena de 3 aninhos a não ter pressa em ver seu cabelo ficar grande como o das coleguinhas. Eu amei o corte! 
35 anos - Assumindo o cabelo crespo: primeiro corte

Teria cortado mais, mas a Margareth Grandha ficou com dó. hahaha... Doei todo o cabelo cortado para duas instituições (Hospital Mario Penna e ORVAM), o que me deu grande alegria. 


Nunca me senti tão livre e consequentemente, realmente bela! 


A partir daí nada mais me fazia sentir feia. Ninguém poderia me fazer sentir assim mais. Eu me olhava no espelho e me amava exatamente como eu era. 

Meu marido ri quando eu falo isso, uma vez que (sim, hoje concordo), sou uma pessoa bonita. Mas o que ele não entende é que sou negra. E na minha infância, adolescência e até mesmo na vida adulta, o fato de ser uma mulher negra me tira do padrão social. Ter o cabelo crespo (e extremamente volumoso), a boca carnuda, o nariz largo, tudo isso me tira de um padrão do que é considerado belo. Hoje me vejo bonita, mas um dia não me vi. 


E o que percebo é que enquanto eu não me sentia bela, eu não me cuidava, não tinha um olhar carinhoso para mim mesma e consequentemente não era vista como bela.


Depois que me encontrei, percebi que aquela tímida menina magricela, "feia" e desengonçada da adolescência era apenas uma menina mal-tratada e escondida. Meu rosto mudou muito pouco, continuo magricela, eventualmente ainda uso óculos (ok, descobri as lentes!). Mas dentro de mim algo mudou. E mudou TANTO que o reflexo desta mudança interna é refletida na parte externa.

Hoje ouço de algumas pessoas a fala: "mas para você é fácil se libertar dos padrões, pois você é naturalmente bonita". O interessante é que quando eu me achava feia (especialmente na adolescência) eu não ouvia muito isso, do "naturalmente bonita".

O que me faz uma mulher bonita é o fato de eu me ver assim e com isso me posicionar como tal. E isso é possível para todas as mulheres. Cada uma tem um corpo, uma cor, um cabelo, etc. Somos seres únicos e igualmente especiais e fantásticos. Basta que nos vejamos assim. O que o outro pensa sobre você não importa; mas sim o que você mesma pensa sobre você. E o que você enxergar de você mesma refletirá externamente. Mesmo. 


Apenas acredite, e viva isso!



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