segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dia da Consciência Negra - como lidar com o racismo na escola?

Sobre o Dia da Consciência Negra de 2013 e seus efeitos em minha vida



Como muitos já sabem, meu “despertar racial” iniciou no ano de 2013, após um episódio ocorrido na escola de minha filha Sara.


Eu me lembro bem o quanto foi duro ter de lidar com tudo e ainda por cima ouvir pessoas ao meu redor me pedindo para parar de falar sobre isso ou até mesmo evitando o contato comigo, pois eu havia ficado “chata” com este assunto. Eu ainda não era ativista por igualdade de direitos e muito menos sabia muita coisa sobre cultura negra. Por isso sofri ao me deparar com a resistência à reflexão sobre o tema.


Eu sabia o que me ensinaram na escola (ou seja, nada) e conhecia muito bem a minha vivência com o racismo da sociedade.


O que sei é que a partir daquele dia, eu passei a buscar uma direção de Deus sobre o que eu deveria fazer e ao mesmo tempo DISPAREI a falar sobre negritude, racismo, e tantas coisas que eu até então não falava abertamente.


Desde então, passei a pesquisar muito sobre a temática cultural negra, busquei frequentar locais onde há maior concentração de pessoas negras e fazer amigos negros (coisa muito rara em minha vida de classe média).

O tempo foi passando e eu fui mudando… Fui quebrando cada grilhão social que, desde bebê a sociedade havia me colocado.

Meu cabelo nunca mais foi alisado/escovado.

Eu com Margaret, a pessoa que me ensinou a cuidar do meu cabelo
Entrei para um coletivo chamado Pretas em Movimento, pois achei fenomenal a idéia de um povo resolver se juntar para montar uma força conjunta para inserção de gente preta em postos de poder.
Abraço Negro das Pretas em Movimento

Café com as Pretas das Pretas em Movimento

Papo de Homem pra Homem das Pretas em Movimento
Passei a ir em feiras, eventos, show, sambas, exposições, teatros, e tudo onde havia qualquer protagonismo negro…

Peça Madame Satã
Fiz amigos, muitos amigos…

Eu com Nilma Lino Gomes e  minha querida amiga Rosane Pires

Em um samba com minhas amigas das Pretas em Movimento
Permaneci firme em Cristo, mesmo com tantos amigos cristãos “se preocupando” com minha permanência na fé (Cultura negra… Já viu o “perigo”, né? Um dia ainda falo sobre isso.).


Mudei de igreja.


Montei um blog, um canal de youtube e uma fanpage só para falar sobre igualdade racial. Infelizmente não consegui alimentá-los por causa da minha segunda gravidez complicada, na mesma época da montagem...




Fundei uma startup que visa acelerar o empoderamento financeiro do povo negro.
Discursei na Praça 7.
Fiz palestra no Google BH e em escolas.
Dei entrevista na TV no dia da Consciência Negra.
A foto é montagem, mas a entrevista é verdadeira. hehehe.
Desde o episódio da escola da minha filha, minha vida mudou totalmente - e para melhor! Acho que a única vez que vi minha vida mudar tanto e tão positivamente, foi quando converti a Cristo, em 2007 (um dia falo sobre isso também).


Hoje, quando lembro do episódio de 2013, no dia da Consciência Negra, me sinto grata, muito grata. Não pelo sofrimento. Mas por todo o crescimento que veio a partir deste gatilho.


Em 2013 eu dialoguei muito com a escola e achei que tudo estava super entendido/resolvido. Fiquei tão feliz na época...

E então, vieram outros dias da Consciência Negra. E em todos os anos seguintes, a escola errou novamente.

Errou em 2014, errou em 2015, em 2016 precisei fazer até video de denúncia no youtube, na tentativa de intimidar ações deseducativas (se é que existe esta palavra) como aquelas. Ou seja: o diálogo não havia adiantado!

E foi quando me lembrei de uma grande lição bíblica: Pra tudo tem um tempo determinado!

"Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; (...) tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz." Eclesiastes 3:5,7a,8



Eu realmente fechei todo o diálogo com a escola neste ano. Todos os líderes da escola me ligaram, querendo conversar sobre o ocorrido. Não aceitei. Em 2013 eu já havia falado tudo o que eu tinha para falar. Deviam ter aproveitado a oportunidade.

Eu recebi de bom grado o "tapinha nas costas" da escola. E pelo visto foi todo um diálogo em vão.

Não era mais momento de diálogo. Era momento de ação. Cheguei a pensar em recorrer à justiça. Mas desanimei também. Estava com meu bebê recém-nascido, 3 meses de vida, época chuvosa, meu marido branco não estava demonstrando muito interesse em fazer algo. Definitivamente eu não tinha ânimo para levar esta guerra sozinha adiante.

Aceitei o tempo de estar calada. E acho que foi a decisão mais acertada.

No ano de 2017 minha filha caiu nas mãos de uma professora MARAVILHOSA, com quem eu pude dialogar abertamente sobre estas questões. É uma pessoa que sabe que precisa aprender e melhorar e tem buscado isso. Ela me disse que quanto ficou sabendo do episódio de 2016, ela PEDIU PARA SER PROFESSORA da minha filha. Porque ela queria acolher e aprender com esta família! Até o momento, só tenho elogios para ela.

E, finalmente, no ano de 2017, me vem um para-casa que achei MARAVILHOSO, considerando que minha filha estuda em uma escola branca onde as questões sobre igualdade racial ainda não estão totalmente desenvolvidas. Eles solicitaram aos alunos que pesquisassem alguma reportagem sobre o Dia da Consciência Negra para apresentar para a turma. Foi este o para-casa. Simples e objetivo. Adorei!

Afinal, O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA é exatamente para isso: para ensinar para a população brasileira que a história das pessoas negras não se resume em escravidão. Que o povo negro é um povo que foi sequestrado do continente africano, junto com seus reis, rainhas, guerreiros e trazidos para cá. E que mesmo que o povo europeu tenha tentado apagar a história deste povo africano, eles não conseguiram. E a cultura permaneceu, se remodelou e se fortaleceu dentro de nossa nação. E que se hoje podemos falar sobre isso, é graças ao fato de tantas pessoas fortes (como nós descendentes ainda o somos) nunca terem aceitado as violências sofridas. Somos um povo que resiste desde o ano de 1500. E para sempre resistiremos, até o dia de nossa vitória.


O DIA DA CONSCIENCIA NEGRA é o dia para nos lembrarmos de Dandara, Zumbi, Aqualtune, Nzinga, João Cândido e tantos outros reis, rainhas e guerreiros que fazem parte da nossa família sanguínea. É para sabermos que a luta deles não foi em vão e que nós estamos aqui para relembrar, valorizar e NÃO DESISTIR NUNCA.

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA é para podermos mostrar para todo o povo brasileiro como o povo negro é forte, bonito e resistente. E que devemos respeitar pelo valor cultural e histórico que temos!


E por isso estou aqui, escrevendo este loooongo e breve relato, um resumo muito resumido sobre 4 anos de ativismo da mãe de uma menininha negra, que insiste em mantê-la na mesma escola, após tantos deslizes.

Eu não acredito que devemos fugir à luta. Ao contrário, devemos ocupar todos os espaços e falar sobre nossa cultura em todos.


E finalizo este texto tão longo e a meu ver com tão pouca informação pela necessidade de resumir 4 anos em algumas linhas para falar sobre a importância do diálogo e a importância sobre entender quando devemos dialogar através do silêncio.


No ano de 2013 eu busquei o diálogo. Levei livros, histórias, indiquei pessoas que poderiam contribuir gratuitamente para a melhoria da implementação da lei 10.639/03 na escola. Tudo isso acreditando que resolveria.


Em 2014 e 2015, me decepcionei em silêncio por perceber que o tema ainda não estava sendo explorado com a riqueza que poderia ter.


Em 2016, um grande baque e uma tristeza tão grande que me fechou completamente ao diálogo.


Agora, em 2017, me reabro novamente, mas agora voltada à quem mais me interessa dialogar: o povo negro (inclusive uma visão mais antiga, que ainda se mantém). Quero falar, quero ensinar, quero ser ouvida.


Mas também volto a acreditar no diálogo com a branquitude que quer ouvir e aprender.

Afinal, ainda temos esta questão: a branquitude aceitar e assumir o racismo que está impregnado em sua cultura. Esta fala de Malcom-X, dita em uma entrevista, ilustra bem:


Eu sei que sem o diálogo não há como acabar com o erro. Então, se eu encontro pessoas dispostas a ouvir e aprender, me disponho a voltar ao diálogo.

Estou montando palestras maravilhosas para este fim (aguardem!). 2018 promete!

Espero que o ano de 2018 seja ainda melhor do que o de 2017 e que agora possamos começar a pensar em soluções para uma efetiva caminhada pela igualdade racial em nosso país.

Passos de formiguinha, mas sempre adiante. O que não podemos é ficarmos parados! Nossos ancestrais negros não ficaram!

Avante!

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