segunda-feira, 19 de março de 2018

Marielle Franco, Presente!



A verdade é que eu ainda me encontro sem palavras para poder expressar o que eu penso, o que eu sinto e até mesmo no que eu creio a respeito da morte da vereadora Marielle Franco.

Por um lado, eu que faço parte de um povo cuja toda a ancestralidade é baseada na cultura do Ubuntu, e que durante grande parte de sua história precisou lembrar dessa filosofia para que pudesse sobreviver em meio a tantas atrocidades, sinto a dor ao ver a morte de uma pessoa como eu e que morreu por ser como eu.

Por outro lado, eu me pergunto se eu quero ficar recorrendo a esse passado de dor que se ainda faz presente no mundo contemporâneo.

Como numa fuga da realidade eu prefiro olhar para o futuro e ver as coisas que ainda podem ser feitas, tentando de alguma forma ignorar o passado e também o presente que nos assola.

A morte de Marielle me faz pensar que o passado não é passado. O passado ainda é presente.

O que antes acontecia com os negros da resistência, que não aceitavam os grilhões da sociedade, acontece ainda hoje num formato que parece estar diferente dos tempos das caravelas, mas que possui a mesma essência.

Ser negro em nossa sociedade é perceber que o passado e o presente são a mesma coisa.

Quando sentimos o tratamento que, como um povo, recebemos, percebemos que ok, não vivemos mais no formato legal de escravidão. Mas esse formato antigo, a fim de ser disfarçado, e assim encontrar uma forma de permanecer, foi remodelado.

O passado ainda se encontra presente em outros modelos e assim percebo que agora somos nós aquelas pessoas negras da resistência dos tempos atuais.

Ainda continuamos sendo espancados e mortos por resistirmos e não nos deixarmos escravizar.

É óbvio que eu não quero voltar atrás na luta.

É óbvio que eu quero continuar sendo resistente.

É óbvio que eu não vou desincentivar ninguém à luta.

Por outro lado, como eu disse anteriormente, como uma fuga da realidade eu quero olhar para o futuro e ao invés de brigar com a branquitude a respeito do que sua cultura faz com a cultura negra, eu prefiro pensar em soluções para buscar uma nova colocação em nossa sociedade do nosso povo.

Somos como um rio que tem a sua correnteza interrompida por barreiras, pedras, galhos, quedas.

Assim eu sinto a luta do povo negro, principalmente da mulher negra. Nós sentimos que não podemos fluir se comparados às águas calmas e livres para fluir da branquitude. Mas as águas dos rios sempre encontram seu caminho, sempre contornam as barreiras, sempre vencem e resistem às quedas.

Por isso eu sempre estou interessada no que tem atrás das pedras e no que vem após a queda, e fico muito pensativa se eu prefiro falar das mortes ou se eu prefiro construir o novo mundo em meio às mortes.

Como eu disse, acho que fujo da realidade.

Prefiro pensar que, ao fugir da realidade, aumenta-se a minha esperança para tentar construir uma nova realidade.

Às vezes, quando eu olho para os acontecimentos atuais e do passado, a minha sensação de impotência aumenta e de alguma forma este sentimento me faz permanecer naquele mesmo lugar, estagnada.

Então, à medida que eu fecho os olhos para o que está acontecendo e penso no futuro, eu consigo vislumbrar um novo lugar para mim e meu povo.

Mas a morte da Marielle, da Cláudia, do Amarildo e de tantos outros que nem viraram “nomes famosos” dentro de nossa militância e que morrem todos os dias, todos esses nomes vem me assombrar.

Eu fecho os olhos tentando ignorar o passado e o presente. Mas o presente me balança e me faz abrir os olhos e ver que a luta não pode parar.

E então sigo assim, passado e presente mas sem querer deixar de olhar para o futuro eu quero construir.

Eu quero ser gente. Eu quero falar de astros, autoconhecimento, dieta, espiritualidade, amor e paz.

Quero falar da vida sem dor, quero produzir eventos, quero conversar amenidades e futilidades, porque sinto que isso também é sobrevivência.

A militância que ocupa todo o meu tempo de vida me adoece e me enfraquece.

Quero sobreviver e olhar para mim com a humanidade que eu tenho e agarrar com tudo a essa humanidade.

Essa é forma de sobreviver de que tem a sua correnteza interrompida por barreiras, pedras, galhos e quedas.

Sigamos lutando, mas sem perder a ternura.

#MarielleFrancoPresente

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